Será que a não-monogamia é para você? Guia básico com 13 questões iniciais

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Até os meus 25 anos, tudo o que eu mais queria na vida era constituir uma família. Casar, ter filhos e envelhecer ao lado de um homem. Hoje eu sou uma mulher não-monogâmica bissexual e possuo relações livres com meus companheiros. 

Agora, espero nunca me casar e nem ter filhos–e eu nunca fui tão feliz quanto tenho sido nesses últimos anos em que passei a viver a não monogamia! Gostaria muito que todas as pessoas se sentissem tão felizes como eu!

Mas como saber se a não monogamia é para você??

Primeiro, vamos entender alguns conceitos básicos:

O que é a monogamia?

A monogamia é um sistema estruturante da nossa sociedade ocidental. Esse conceito foi melhor definido pela pensadora Brigitte Vasallo como “uma superestrutura de organização e distribuição dos afetos” e está totalmente relacionado com a história de desenvolvimento do nosso sistema econômico atual.

De forma mais simplificada: a monogamia é um conjunto de normas específicas que ditam as nossas práticas afetivas (amorosas e sexuais), orientando como nos relacionamos uns com os outros.

Que normas são essas?

De modo genérico (não iremos entrar em todos os detalhes agora), as normas que regem a monogamia dizem respeito à exclusividade dos corpos. 

Por exemplo: nós podemos ter vários amigos e amigas, mas só podemos ter um namorado ou um marido. Podemos amar nossos amigos e amigas, mas a forma de expressar esse amor não pode envolver o compartilhamento do nosso corpo–porque só podemos nos deitar com aquele que for nosso namorado ou marido. 

Nosso afeto pode ser compartilhado (dentro de alguns limites impostos) com nossos amigos e amigas, mas nosso corpo é sempre exclusivo daquele com quem formamos ou formaremos uma família. 

Pelo menos na teoria, né? Porque na prática as traições desses acordos de exclusividade acontecem com frequência.

Em última instância, a monogamia dita a forma como estabelecemos laços familiares: a partir de uma única relação com quem estamos autorizados a compartilhar nossos corpos e com quem eventualmente formaremos a “família tradicional brasileira”. Qualquer relação que ameace a formação dessa família é vista de forma condenável pela sociedade.

Mas sempre foi assim?

Como visto nesse vídeo abaixo apresentado pela Rita Von Hunty,

“A ordem social em que vivem os homens de determinada época ou determinado país está condicionada por essas duas espécies de produção: pelo grau de desenvolvimento do trabalho, de um lado, e da família, de outro”. (Friedrich Engels)

 

O vídeo acima explica que a cada momento de grande divisão social do trabalho, houve um momento de grande divisão da sociedade em formas familiares distintas. Desse modo, a formação familiar monogâmica que temos hoje é apenas a configuração familiar que acompanhou a nossa atual estrutura econômica, dentro do capitalismo.

Dá pra ser diferente? 

Da mesma forma que mudanças econômicas necessariamente causam mudanças no nosso modo de organização familiar, o caminho contrário também acontece: mudanças na configuração familiar que temos hoje necessariamente impactam o sistema econômico que fazemos parte. 

Não dá pra mudar um sem mudar o outro.

Como vivemos em um sistema globalizado, é muito difícil estabelecer uma forma de organização familiar não-monogâmica, mas existem pessoas- como eu- que tentam criar alternativas de relacionamentos não-monogâmicos!

Então o que é não-monogamia?

É bem auto explicativo, né? Como o próprio nome diz: a não-monogamia é a negação dessa formação familiar monogâmica.

“a não monogamia política é um orientador de projeto de vida que é coletivo e emancipatório de construção de uma identidade política pautada em uma antimonogamia” Projeto Não Mono em Foco

Ou seja, se a monogamia diz respeito a uma exclusividade dos corpos, na não-monogamia não existe um pacto de exclusividade sexual e nem afetivo pré-estabelecido: várias formas de se relacionar podem ser definidas!

Quais são as formas de relacionamentos não-monogâmicos que existem?

Como cada relação pode estabelecer sua dinâmica própria, muitas formas de acordo são possíveis. Os modelos de relacionamento mais comuns dentro da não-monogamia são: relacionamentos abertos, poliamor, relações livres e a anarquia relacional.

O relacionamento aberto é o mais próximo da lógica monogâmica, porque nele ainda existe uma noção de exclusividade, normalmente afetiva. A liberdade sexual explorada com pessoas fora da relação “oficial” não pode evoluir para nada além do “casual” (e essa noção de casualidade também pode ter diferentes interpretações para cada casal).

Já dentro do poliamor, o modelo mais conhecido é o relacionamento a três, em que, ao invés de um casal, temos o famoso “trisal”, como na série You Me Her. Esse arranjo, por sua vez, também pode ser aberto ou fechado.

Como a ideia de exclusividade ainda está presente de alguma forma nesses modelos, muitas pessoas não consideram essas práticas como relações não-monogâmicas de fato: normalmente elas são uma etapa de transição.

Mas existem outras práticas dentro do poliamor que permitem a formação de múltiplas relações amorosas e sexuais. Essas diversas relações podem acontecer com ou sem o estabelecimento de hierarquias entre si. 

O poliamor não-hierárquico se aproxima muito do praticado entre os adeptos da anarquia relacional e das relações livres: nesses relacionamentos, além de não existir nenhum pacto de exclusividade sexual ou afetiva, também não existe um relacionamento “primário” com maior hierarquia sobre os demais relacionamentos.

Existe diferença entre poliamor não-hierárquico e anarquia relacional?

Esse artigo aqui explora em detalhes as diferenças entre as duas práticas, mas as diferenças gerais mais marcantes são as seguintes:

Poli não hierárquico

  • É uma forma de poliamor;
  • Remove apenas hierarquias românticas e sexuais;
  • Uma maneira de estruturar relacionamentos românticos.

Relacionamento Anarquista

  • Veio da filosofia política anarquista
  • Rejeita TODAS as hierarquias e é anti-hegemônico;
  • É uma filosofia baseada na autonomia, não-governança e não-opressão.

Então não existe traição nos relacionamentos não-monogâmicos?

Os defensores da não-monogamia política defendem que a noção de traição só existe dentro da lógica monogâmica. Claro que cada relacionamento estabelece um conjunto de acordos específicos, mas eles nunca são considerados uma “cláusula pétrea” e sempre podem ser questionados e revisitados.

O amor de uma única pessoa nunca é suficiente?

Você ama seus amigos e familiares, certo? O fato de você amar mais de um amigo ou mais de um parente, torna o amor individual deles insuficiente para você? Esse pensamento não faz muito sentido, né?

Então por que aplicamos uma lógica diferente quando pensamos nas nossas relações românticas?

Quando nos apaixonamos, é comum desejarmos romanticamente apenas uma pessoa. Mas pessoas não-monogâmicas não precisam ter vários parceiros simultaneamente ao longo de toda a vida. Afinal, o conceito trata de uma concepção política que existe independente de estarmos nos relacionando romanticamente com alguém no momento ou não.

Entretanto, a não-monogamia oferece possibilidades: se houver desejo de beijar uma ou mais pessoas e esse desejo for recíproco, por que reprimir? E se você for capaz de se apaixonar por várias pessoas ao mesmo tempo melhor ainda, certo?

Pessoas não monogâmicas não sentem ciúmes?

É um mito que pessoas não-monogâmicas não sentem ciúmes. No entanto, entendemos que o ciúmes é um termo que usamos para descrever um conjunto de sentimentos muito diversos. 

 “O que acreditamos ser importante é a consciência de que ele não deveria ser levado como expressão saudável do amor. Uma análise que (a mestra em Psicologia Social) Geni Núñez nos traz é de como o ciúme acaba sendo um termo guarda-chuva para diversos sentimentos, como posse, desejo de controle, algum trauma não trabalhado.” (Não Mono Em Foco)

De forma bem semelhante, a socióloga e podcaster Marília Moschkovich explica aqui que o ciúme é “uma categoria super ampla que usamos para falar de uma gama de situações muito diversas e que, quando usamos, via de regra acabamos escondendo o problema real que está acontecendo”.

E como lidar com esses ciúmes?

Algumas estratégias que usamos dentro dos nossos relacionamentos não-monogâmicos é tentar descrever o que estamos sentindo sem usar o termo ciúme. Com isso, devemos melhorar nossa capacidade de diálogo com nossos parceiros, além do nosso autoconhecimento.

Não dá mais trabalho ter várias relações?

Novamente, ninguém é obrigado a ter mais de uma relação! Nós apenas somos livres para decidir como iremos nos relacionar, sem a pressão da exclusividade. Mas nossa vida não é só namorar 24h por dia. 

Como adepta dos modelos de relações livres, eu cultivo para minhas relações amorosas de forma muito semelhante das minhas relações de amizade e vínculos familiares. As relações físicas não fazem com que essas relações tenham prioridade ou centralidade na minha vida. Logo, também não é um “trabalho” maior do que o trabalho que existe em manter várias amizades e uma boa relação com nossos parentes (às vezes esse último é o mais difícil).

Mas somos livres! Esse é o maior ponto: somos livres para cultivar as relações das formas que fazem mais sentido em cada situação. E a felicidade que essa liberdade e esse entendimento político me trouxeram é impagável!

E aí, você já considerou a não-monogamia?

Se está lendo esse texto agora, imagino que esteja questionando as formas de se relacionar impostas pelo sistema. É o primeiro passo! Pesquise mais sobre o assunto e comece a debater o tema entre seus amigos e companheiros. As possibilidades são infinitas: mesmo que escolha ter um companheiro sexual de cada vez, é importante fazer essa escolha de forma consciente, entendendo exatamente os motivos da sua escolha!