Guia básico do sexo com mulheres: 17 coisas para saber antes de fazer

No meu último relacionamento monogâmico com um homem, o roteiro mais comum das nossas relações sexuais era o seguinte: a gente transava (só com penetração), ele gozava, dormia e eu terminava frustrada me masturbando embaixo do cobertor.

Deprimente, né?

Em uma discussão após o término, irritado, ele me desafiou: “quando você vai sair do armário? Já transei com você por tempo suficiente para saber que você nem gosta disso”. 

Mas que mulher gostaria de transar dessa forma?? 

Felizmente faz alguns anos que eu terminei esse relacionamento e desde então tenho vivido a não-monogamia como mulher bissexual, aproveitando o melhor dos mais variados roteiros sexuais. E, sim, homens héteros deveriam aprender muito com o sexo entre mulheres. E mulheres bissexuais inexperientes também ganhariam muito se escutassem outras mulheres lésbicas mais experientes.

Por onde começar?

1. Desconstrua o que você entende como sexo

O que a gente entende como sexo é uma construção social, pautada pelo moralismo cristão que condenou o prazer como um pecado. Nessa ideia, o sexo permitido é apenas aquele voltado para a reprodução: a penetração envolvendo um homem (ativo) e uma mulher (passiva). Qualquer relação sexual LGBTQ+ é condenável e por isso não deve ser ensinada. 

Assim nosso entendimento fica muito limitado, não acha? 

No universo LGBTQ+ do relacionamento entre duas mulheres, qualquer tipo de carinho que proporcione prazer sexual já é entendido como sexo. Como cada pessoa experiencia o prazer de variadas formas, o céu é o limite! 

Desse modo, não enxergamos nenhuma separação entre as “preliminares” e o coito, porque as preliminares já são a realização do ato sexual em si e o coito é só mais uma possibilidade de se praticar o sexo. 

2. Não falta nada?

A opinião preconceituosa de que “sexo sem pênis não é sexo de verdade” e de que “sexo lésbico é um sexo incompleto” vem justamente dessa noção do sexo atrelada ao coito. Quando mudamos nosso entendimento do conceito, nossa experiência prática também muda.

Quando se é ensinado que o sexo é apenas o ato da penetração entre duas genitálias distintas, a realização sexual coletiva se torna limitada. Essa noção reduz a capacidade criativa e o nível de dedicação e empolgação que é colocado na exploração do nosso prazer corporal para além da meteção de sempre: mas nós precisamos de muito mais que isso!

Ou seja, o que falta é uma definição mais apropriada do sexo! 

3. Sexo não é só sobre genitálias

No “sexo lésbico” não falta nada, justamente porque ninguém precisa de um pênis para transar. As relações sexuais não precisam envolver um pênis nem mesmo em uma relação heteronormativa: sexo é sobre muito mais do que genitálias e mulheres que se relacionam com outras mulheres transam com as mais variadas partes do corpo.

4. Mas sexo lésbico não é sempre entre duas pessoas com vulvas?

Qualquer sexo (hétero ou não) envolve mais do que o contato entre genitais, mas também precisamos nos lembrar que algumas mulheres possuem pênis, e não estou falando só daqueles de borracha que podemos comprar na sex shop (e que pode ser muito melhor do que um pênis de verdade)! 

Por exemplo, o sexo entre uma travesti e uma mulher também é visto como um sexo “lésbico” ou um sexo entre duas mulheres. E o fato de uma das mulheres (ou as duas) ter pênis também não significa que ele será usado, justamente porque o sexo não é apenas uma interação com as genitálias – sejam elas pirocas, xerecas ou xerocas – mas com todo o corpo dos envolvidos, podendo incluir as genitais ou não!

Já pensou se os homens héteros tivessem esse conhecimento?

5. Não busque respostas no pornô

Quando eu comecei a me relacionar com outras mulheres, eu já era uma mulher de mais de 20 anos e só tinha tido experiências com outros caras até então. Eu tinha muitas dúvidas sobre o que fazer na hora H com outras mulheres e morria de medo de “fazer feio”. Por causa dessa insegurança eu acabei cometendo muitos erros que você pode evitar!

Antes de sair para um date/encontro com a crush, eu procurava vídeos pornôs e assistia com o intuito de aprender o que fazer. Era uma situação péssima, porque nada do que eu via naqueles filmes me excitava e só depois eu fui entender o motivo: o pornô lésbico é feito para realização de um fetiche masculino e não ensina nada sobre o prazer entre duas mulheres na cama!

Busque respostas conversando com outras mulheres mais experientes, converse com seus amigos, amigas e amigues LGBTQ+ e esqueça tudo o que você aprendeu vendo filme adulto sobre sexo entre mulheres: não é assim que transamos!

6. Se for sua “primeira vez”, fale

A ideia de virgindade só faz sentido dentro desse âmbito sexual heteronormativo que considera sexo apenas o ato penetrativo envolvendo um pênis e uma vagina. No mundo LGBTQ+ toda relação sexual com um parceiro novo é uma primeira vez. 

Ainda assim, é comum ficarmos nervosos quando nos consideramos inexperientes e nos sentimos inseguros com a nossa performance na cama. Também sou culpada por errar nesse ponto e faria tudo diferente se pudesse voltar no tempo. Tive muitas experiências ruins com outras mulheres que teriam sido evitadas se eu tivesse sido honesta. 

Hoje eu sei que a inexperiência também pode proporcionar relações sexuais muito excitantes: pedir para ser ensinada é um bom caminho, que pode acarretar em conversas sexuais estimulantes. Aliás, conversar abertamente sobre nossos desejos, fantasias e realizações sexuais é sempre o caminho mais eficiente para encontrar o roteiro sexual mais agradável para todos os envolvidos!

7. Tá na dúvida? Explore o corpo todo (e o que mais tiver a disposição)!

Experimente transar com a língua, com as mãos, com os pés, com as coxas, com brinquedos…Eu, particularmente, adoro transar com as mãos, inclusive prefiro muito mais o sexo penetrativo dessa forma! 

Outra coisa que vale a pena ser explorada são os elementos extra-corpóreos: sexo é muito mais do que uma sensação física! Por exemplo, eu gosto muito de sexo verbal, sexo falado, sexo visual, uma experiência estética bonita… Descubra o que te dá mais tesão: figurino, velas, luzes coloridas, trilha sonora, jogos eróticos, etc. 

Todos esses elementos podem fazer parte do ato sexual e devemos saber o que nos estimula mais e o que nos estimula menos: quanto mais você se conhecer, mais fácil e prazeroso será também para a pessoa com quem estiver se relacionando.

8. Desapegue-se de modelos pré estabelecidos

Eu repito muito uma frase que já virou um bordão muito entre meus amigos: a forma como transamos é culturalmente determinada. 

E o que isso quer dizer? 

Quer dizer, basicamente, que um rapper da quebrada de São Paulo não transa da mesma forma que um ator de bollywood da Índia, que uma muçulmana do Paquistão não transa da mesma forma que uma evangélica do sertão. 

Os meios de comunicação e a mídia são instituições potentes que formam modelos pré-estabelecidos de sexo. Mesmo se você não consumir conteúdo explicitamente pornográfico (e recomendo fortemente que não veja), ainda temos o erotismo construído na literatura, nos filmes, nas novelas, etc. Esse modelo “padrão” de como o sexo deve ser é algo que devemos nos esforçar para desconstruir. 

Cada pessoa é única e sente o prazer de forma particular: não existe um padrão que funcione para todo mundo. Então, desapegue-se de qualquer modelo e crie sempre algo novo com todas as pessoas com quem você se relacionar.

9. Você é ativa ou passiva? 

De forma simplória, a pessoa ativa é aquela que gosta de penetrar e dar prazer. A pessoa passiva é quem gosta de ser penetrada e receber prazer. Como a ideia conservadora de sexo heteronormativo coloca o homem automaticamente nesse lugar de ativo e a mulher como passiva, existe uma pressão de que mulheres e homens LGBTQ+ assumam uma posição nessa divisão, mas ela não é tão simples como parece! 

De fato, existem pessoas que podem estar curtindo uma performance 100% passiva e aí não existe compatibilidade na cama se a parceira não estiver disposta a ser 100% ativa. Se isso for uma questão para você, é legal comunicar a crush sobre esse seu momento. 

Por exemplo, agora eu estou vivendo uma fase em que, com homens, gosto de ser 100% ativa e, com mulheres, gosto de ser mais passiva. Quando alguém demonstra interesse, ou eu espero para descobrir nossa compatibilidade na cama (e se não rolar tudo bem, faz parte!), ou eu comunico: essa é a minha vibe de agora, rola?

10. As posições nunca são fixas

A nossa cultura determina como nos relacionamos e ela está sempre em transformação. Eu não sei dizer se em algum momento histórico já fez algum sentido a divisão rígida entre ativas e passivas no meio sapatão, e nem se ele ainda faria sentido hoje em algum lugar específico do mundo, mas ele não corresponde a forma como as mulheres ocidentais da minha geração fazem sexo.

Esse lugar de atividade ou passividade é um espectro que oscila, você pode passar meses se entendendo como uma mulher passiva e depois passar alguns anos gostando de ser a ativa. Você pode gostar de alternar cada vez que você for transar e às vezes variar entre as duas posições na mesma transa! A dinâmica é construída ali, na cama – e no desenrolar de tudo até o momento do ato – com cada pessoa com quem você for se relacionar. 

11. Sexo entre duas mulheres é melhor?

Não necessariamente! Até existem estudos que comprovaram que mulheres lésbicas e bissexuais costumam ter muito mais orgasmos nas suas relações do que mulheres héteros, mas existem muitos fatores que devem ser considerados e tem muito mais a ver com a concepção de sexo do que com o gênero dos envolvidos no ato! 

Se você transa com mulheres há um tempo, e encontra outra parceira também experiente e compatível sexualmente com você, provavelmente você terá muito mais orgasmos do que transando com um homem hétero experiente, porque o entendimento de sexo dele é limitado. Agora, isso não quer dizer que todo sexo entre mulheres é melhor, nem mesmo que ele sempre será bom: sexo entre mulheres é sexo entre duas pessoas. Não é porque você teve uma experiência ruim na vida com uma mulher que você não pode ter um sexo maravilhoso com outra depois disso. O mesmo vale para os homens, não vale?

12. E quando o sexo termina?

Essa é uma dúvida muito comum. Afinal, o sexo heteronormativo termina quando o homem tem um orgasmo. O orgasmo da mulher é secundário e opcional, mas o do homem é obrigatório. 

Em alguns casais mais feministas, o orgasmo dos dois parceiros é colocado como obrigatório e aí é muito comum que o homem faça de tudo para a parceira gozar mais rápido. Não porque ele esteja preocupado com o prazer da mulher, mas porque ele quer se ocupar logo do próprio prazer e, uma vez que esse “problema” estiver resolvido, ele pode voltar a gozar sem culpa.

Mas no sexo entre mulheres (e como deveria ser com todo casal), o sexo não termina em função do orgasmo de ninguém. Ele pode acontecer ou não, com um dos envolvidos ou com os dois, mas ele nunca é o objetivo final da transa (até porque ela também não acaba depois do orgasmo, e pode continuar por muito tempo depois disso).

O sexo acaba quando o casal decide parar!

13. Lembre-se: o consentimento pode acabar a qualquer momento

E é exatamente nesse instante que o sexo termina, porque se um dos envolvidos quer parar, os dois param. Na cama, olhos atentos ao parceiro, sempre! Ela parece interessada, envolvida? Está gostando, continuando, criando? Tente sempre corresponder a energia do seu parceiro(a) na mesma intensidade e proporção, é assim que as mulheres transam. Não tem segredo! Às vezes a companheira está mais cansada, menos excitada, e tudo bem!

A ideia heteronormativa de que o sexo não termina enquanto o companheiro não ejacula força muitas mulheres a continuarem uma transa mesmo quando elas já perderam o interesse no meio do ato. Percebeu que a mina deu uma broxada? Sugira você mesmo parar e continuar outro dia.

14. É tudo uma transa

Essa ideia de “quando o sexo acaba” também implica uma definição de “quando o sexo começa”. É no beijo? E na construção do clima, no jogo do flerte? Na dança, no strip-tease, no estabelecimento da dinâmica de quem está mais ativo ou mais passivo naquela noite?

Se o BDSM entrar na jogada os limites são ainda mais tênues, mas hoje estou dando só uma introdução sobre o tema e volto sempre para o primeiro ponto: desconstrua tudo o que você achava sobre sexo até agora.

15. O ritmo é outro

Não tenha pressa. Não transe como se fosse a última vez que vocês fossem estar juntos na vida. Se descubram com calma, como se vocês tivessem todo o tempo do mundo para explorarem o corpo um do outro. Aproveitem cada instante. O prazer da mulher é construído aos poucos, e fica melhor quando o tesão é acumulado.

A imaginação, o desejo, o jogo de provocação… Tudo isso deixa a mulher mais excitada. Se as coisas esquentarem muito rápido, dê uma desacelerada: aproveite o beijo e todo o ato sexual como uma longa dança, com vários momentos e ritmos distintos.

16. Cuide da sua saúde

Nossa educação sexual já é péssima: de modo geral não aprendemos nada nem na escola e nem dentro de casa – e devemos responsabilizar o lobby da bancada religiosa (cristã) por isso. Educação sexual deveria ser um direito de todos, porque apenas pessoas bem informadas sabem como se proteger contra doenças sexualmente transmissíveis, sem falar em outras situações de violência que não devem ser toleradas e é na escola que devemos aprender sobre elas. 

O pouco que é ensinado hoje sobre sexualidade está voltado exclusivamente para o sexo heteronormativo e qualquer tentativa de mudar isso normalmente é recebida com histeria social. Enquanto isso não muda, devemos usar a internet a nosso favor, disseminando informações confiáveis:

  • Faça exames regularmente

Até existe “camisinhas” que protegem contra as doenças transmissíveis pelo sexo oral e pelo sexo com as mãos, mas a verdade é que a forma mais prática de você se proteger é estando sempre em dia com seus exames: faça testes periodicamente e solicite que todos os seus parceires também o façam! 

  • Unhas sempre aparadas

Isso é fundamental para todas as pessoas que transam com as mãos. Para além do fato que unhas grandes machucam a parceira, elas também acumulam sujeira e bactérias que transmitem infecções. Se você não for usar alguma luva de látex como proteção, ande sempre com um cortador na bolsa para emergências!

  • Camisinha sempre: na piroca e no dildo!

Isso mesmo, camisinha não é apenas para nos proteger de gravidez! Mesmo no sexo anal ou em qualquer outra situação em que você estiver penetrando seu parceiro ou parceira. Se não tiverem sido testados recentemente, não se arrisquem!

  • Se puder, vacine-se contra HPV

Em 2021 o SUS aumentou o grupo de pessoas que poderiam se vacinar gratuitamente contra o HPV: confira se você faz parte desse grupo e vacine-se. O HPV é um vírus que afeta muitas pessoas LGBTQ+, em especial as mulheres, e não tem cura. Uma das coisas pela qual eu sou muito grata pela minha mãe é que ela me levou para ser vacinada contra HPV na adolescência, em um laboratório privado. Se você não tiver direito a vacina pelo SUS, mas tiver condições de tomar a vacina em uma clínica privada, não deixe de fazer isso, você vai se sentir muito mais segura.

  • Não existe vacina contra HIV, mas existe o PrEP e o PEP

O PEP é um remédio disponibilizado gratuitamente pelo SUS a todas as pessoas que se expuseram ao vírus do HIV, em até 72 horas. Então, se você tiver sido exposto, não se desespere e procure imediatamente a CTA mais próxima da sua casa! O PrEP é outro remédio disponibilizado pelo SUS para algumas pessoas da parcela LGBTQ+, em especial homens e mulheres trans: tire todas suas dúvidas no CTA e se proteja sempre!

17. Não se cobre tanto

Não coloque tanta expectativa em si mesma. Minha melhor amiga sempre me fala que “a primeira vez é sempre ruim”. Sexo fica bom com o ganho de intimidade. Se você acabou de conhecer alguém, ou ainda está muito tímida, avalie se não é melhor esperar. Eu já cansei de ter sexo ruim porque me precipitei fazendo algo não estando 100% confortável.

Tirar essa pressão da expectativa ajuda bastante a diminuir qualquer desconforto, mas outra coisa que ajuda bastante é ter uma auto estima forte e se sentir confiante!

Se precisar de ajuda para melhorar sua confiança, confira aqui nosso guia pratico para fortalecer a auto estima em 16 passos!

O que acha de refletir sobre esses pontos antes de começar a se relacionar com uma nova pessoa?