10 dicas para não errar na hora de lidar com os enteados

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É incrível como às vezes nossas histórias engraçadinhas de infância lançam um retrato geracional, né? Minha mãe volta e meia conta, em meio a risadas, do dia que eu voltei da casa da minha coleguinha de escola, ao alto dos meus cinco anos, e contei para ela, completamente chocada com a coincidência, que “o pai da Carlinha e a mãe da Carlinha moram na mesma casa, acredita?”.

Ela me respondeu que era assim mesmo, algumas pessoas têm pais e mães que moram na mesma casa, mas eu não fiquei muito convencida da ordinariedade desse tipo de família.  Os meus pais se separaram quando eu tinha dois anos, e a verdade é que eu não me lembro de um período da minha vida em que eles estivessem juntos como um casal, então, para mim, o normal eram mesmo os pais que moram em casas diferentes. 

Falo de um retrato geracional porque, para a minha geração (nós, os famigerados millennials), ter pais divorciados no fim dos anos 90 e na primeira década dos anos 2000 não era nada demais – nem estranho, nem incomum, nem digno de olhares atravessados. Era um arranjo familiar possível (e esse artigo da Folha que mostra que 1 a cada 3 jovens no ano de 2007 era filho de pais separados exemplifica o quão comum era esse arranjo​).

E se nos novos anos 20 um a cada cinco casais se separam em até um ano depois da chegada dos filhos (como discutimos no nosso artigo de dicas para manter o casamento vivo após a chegada dos filhos), e se existem no Brasil hoje mais de 11 milhões de mães solteiras, é de se imaginar que muitos príncipes e princesas encantados por aí são também pais e mães, né?

Você se encontra completamente caidinha ou caidinho por uma pessoa que traz no seu pacote um ou uma penca de filhotes. Caso você ainda não tenha certeza se está disposto a encarar as particularidades de um relacionamento atravessado por essas circunstâncias, dá uma lidinha no nosso artigo anterior “Estou me apaixonando por alguém com filhos. E agora?”

Mas se você já decidiu que está disposto, seguem aqui algumas dicas para não errar na hora de lidar com os enteados:

1. Oscar de melhor coadjuvante

Se você é uma daquelas pessoas que gosta de sempre chegar primeiro, de ganhar, de ser a melhor em tudo que você faz, não se preocupe, tem espaço para você ser a melhor nessa relação também. O pulo do gato está em saber em qual papel você vai ser a melhor (uma dica, não é o de protagonista).

Uma grande amiga da minha mãe, casada há anos com um homem que já tinha um casal de filhos, usou essa metáfora incrível para descrever o que ela almejava ser como madrasta – a pessoa que ganha o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Ela não compete com os pais pelo protagonismo da educação, criação e decisões sobre a vida dos enteados, mas ela é brilhante no papel de madrasta.

É interessante que todos os envolvidos, inclusive as crianças, entendam que você não pretende competir pelo lugar de pai ou mãe, que você compreende que esse lugar já é ocupado por uma pessoa, e você respeita isso. Respeitar isso pode ser demonstrado, por exemplo, não medindo forças, não se opondo à decisões dos pais, não falando mal dos genitores na frente da criança, dentre outras atitudes. 

Crianças tendem a ficar muito na defensiva se sentirem que você quer roubar o lugar do pai ou da mãe delas, mas se entenderem que você não tem essa intenção e que amar você não é uma escolha que prejudica ninguém que é importante para ela, você tem bem mais chances de ser feliz com a sua nova família. 

2. Não competir – são relações diferentes

Um dos conselhos mais absurdos que eu já li, e surpreendentemente está em muitos sites com dicas para namorar pessoas com filhos, são na linha de “seja assertivo pra garantir que VOCÊ vem em primeiro lugar” ou “No começo aceite o segundo lugar”. O grande problema com essas dicas é que elas colocam você e as crianças como competidores pelo espaço na vida e no coração do seu parceiro, e esse é um lugar onde você definitivamente não quer estar.

Primeiro que amor não é um recurso finito, ou, como dizem por aí, amor não é torta – não é porque uma pessoa tem uma fatia grande que as outras vão ter menos disponível. Segundo que, bem, você é a pessoa adulta da história. Sejam os filhos do parceiro crianças ou adolescentes, é de se esperar que você seja mais maduro e experiente, então a responsabilidade de ser termômetro para essa relação é sua, e não das crianças.

E, por fim, as relações de pai ou mãe com filhos são completamente diferentes das relações amorosas – filhos dependem dos pais, inclusive para sobrevivência, parceiros não dependem. Os pais não escolhem os filhos que têm, mas escolhem os parceiros.

É simplesmente uma categoria diferente de amor. 

Muitas vezes os filhos têm problemas com os novos parceiros dos pais justamente porque têm medo de serem substituídos, de se tornarem menos amados. Alimentar essa competição vai criar insegurança e antagonismo na relação com seus enteados, e vai colocar uma tensão enorme na sua relação com o parceiro.

Então a dica fundamental é: não entre em competição com seus enteados pelo amor do seu parceiro. Mas se quiser ir além, fica a sugestão – ajude eles a entenderem que a posição deles é segura, e que independente da relação que você vai desenvolver com eles, não é uma competição pelo afeto do pai ou da mãe deles.

3. Criar uma relação própria com a pessoa

O segredo do sucesso aqui é que os filhos do seu novo parceiro não se sintam ameaçados pela sua presença na vida familiar, certo? O jeito mais fácil de alcançar esse objetivo é se a sua relação com seus enteados não for condicionada a sua relação com o pai/mãe deles.

Como assim?

Digamos que você passa a integrar todos os programas que antes eram só de pai/mãe e filhos. Você passa a ser um apêndice nesses programas, talvez até um intruso. Mas e se de repente a sua presença possibilita programas diferentes, que não eram feitos antes?

E se você consegue passar um tempo de qualidade com seus enteados sem a presença mediadora do seu parceiro? Você começa a construir a sua relação com as crianças.

Como madrasta ou padrasto, você está em uma posição muito boa para se tornar um aliado, um adulto amigo, do(s) seu(s) enteado(s). Alguém que não tem exatamente as obrigações e responsabilidades dos pais, mas que tem mais experiência de vida e pode dar bons conselhos.

Alguém que, de repente, consegue lançar um olhar mais dispassional sobre circunstancias conflituosas e ajudar a achar um acordo. Eu, por exemplo, fiquei tão amiga da minha madrasta que a nossa relação continuou mesmo após o relacionamento dela com meu pai acabar, e eu conheço mais do que alguns outros casos em que a mesma coisa aconteceu.

Use essas possibilidades ao seu favor.

4. Trazer a pessoa para o seu time

Eu sempre tive muito ciumes dos namorados da minha mãe quando eu era criança. A atitude mais sagaz que um deles tomou (eu não tinha nem sete anos e até hoje eu fico impressionada com a sagacidade), foi quando ele me pediu por favor para eu ajudar ele a escolher um presente de aniversário para ela. Com esse gesto ele me dizia:

  1. Você é a pessoa que mais conhece sua mãe no mundo e eu reconheço isso.
  2. Eu te considero uma pessoa no seu próprio direito, e confio no seu julgamento (ainda que para uma coisa tão simples quanto um presente).
  3. Eu preciso da sua ajuda para ter sucesso nesse relacionamento, e eu estou disposto a pedir.
  4. Você estará inerentemente inclusa na minha relação com a sua mãe. 

Além disso, ao ajudar ele a escolher o presente, eu me sentia parcialmente responsável e, assim, eu também torcia para o presente ser bem-sucedido – eu torcia pelo sucesso do presente dele.

Com esse pedido de ajuda, o que ele fez na verdade foi me puxar pro time dele. Me fazer torcer para que ele fosse bem-sucedido em fazer minha mãe feliz. 

Acho esse passo importante porque você e seus enteados tem um desejo muito grande em comum – a felicidade do seu parceiro. Se você conseguir mostrar que vocês podem trabalhar juntos, sem sacrificar a felicidade individual de nenhum de vocês, para alcançar esse objetivo, ponto para você!

5. Entender que seus limites não são os limites dos pais

Isso é muito delicado – às vezes você já está com o parceiro há tempos, e sua relação com os enteados já é bem-resolvida. E, por um motivo ou outro, você esquece o cuidado com os limites da relação que você tomava no começo, e acaba agindo de formas que são ok para os pais dos seus enteados agirem, mas que eles não consideram okay para você.

Talvez seja um limite de responsabilidade ou envolvimento na vida dele(s) ou talvez seja um limite de aplicar punição. Talvez sejam brincadeirinhas que eles aceitam apenas por parte dos pais, ou talvez até seja um limite físico – um tipo de contato que eles não apreciam vindo de qualquer um. 

Seja como for, mesmo em uma relação saudável e estável, mesmo depois de anos de contato, é importantíssimo lembrar que os seus limites com seus enteados não são, e provavelmente nunca serão, os mesmos limites dos pais deles.

Lembre-se da primeira dica, e ela vale para sempre – é importante saber qual o seu papel nessa relação. Até porque…

6. …demora muito a construir a relação de confiança, mas é rápido para destruir

Existem casos em que se leva muito tempo, anos até, para construir uma relação de respeito e apreço que tá legal para todo mundo. Mas basta você cruzar um limite e parece que todas as barreiras estão de volta. 

É preciso entender que a relação madrasta/padrasto com seus enteados passa por inseguranças muito fundamentais de um ser-humano, e a única forma dela ser construída é com base em muita confiança. Se um limite foi posto em cheque, especialmente se foi um limite que era importante para seus enteados, a confiança fica abalada, e ela é a base de tudo.

Mas não se desespere – não quer dizer que tudo está perdido. Mas quer dizer sim que você vai ter que trabalhar duro para resgatar essa confiança, e se esforçar para não trair ela novamente.

7. Muito cuidado nas mudanças e transições

Talvez esteja tudo muito bom e tudo muito bem na sua relação com seu parceiro e com seus enteados, e aí vem uma mudança – vocês decidem se casar ou morar juntos, descobrem que vem aí um novo bebê, resolvem se mudar de casa, ou mesmo de cidade.

E aí parece que a regressão é total na relação com os enteados. 

Isso pode acontecer porque eles estão confortáveis com uma situação, e quando percebem haverá mudanças, aquelas inseguranças do começo da relação podem voltar com tudo. É preciso lidar com carinho e paciência com os momentos de mudança, para que seus enteados possam desejar essas mudanças junto com vocês, participando da construção delas, de forma a não se sentirem tão inseguros e à mercê das circunstâncias.

Ajudá-los a entender que o bebê que chegar vai ser deles também, ou preparar um cantinho do jeito que eles sonharam na casa nova. Dar a eles um papel importante na cerimônia de casamento ou achar espaço para um novo hábito familiar que ele desejava muito a partir da mudança de rotina.

Existem várias formas de pensar em como incluir os enteados nas mudanças, e transformá-los em agentes dessas novas circunstâncias.

Cabe a você e ao seu parceiro assegurá-los de que mesmo com essas mudanças o lugar deles será colocado em prova.

8. Ir no ritmo da criança

O tempo da criança é diferente do nosso tempo. Pode ser que no seu coração você desejava estar na velocidade da luz na evolução da sua relação com seus enteados, enquanto eles ainda estão trabalhando em aceitar que não vão poder fugir de uma relação com você.  Acontece, e tá tudo bem.

A maior parte das coisas na vida de uma criança é pautada pela velocidade necessária para o mundo adulto, e existem algumas poucas exceções. A sua relação com seus enteados é uma delas. Não adianta forçar a barra, querer ser o melhor amigo do dia pra noite, nem nada parecido. É preciso dar tempo ao tempo, e exercer uma sedução mesmo.

O presente da confiança dos seus enteados precisa ser dado livremente, no momento em que eles te acharem digno. 

Pode ser que esse processo seja mais lento do que você gostaria. Mas até isso tem suas vantagens – quando essa confiança finalmente vier, você vai se sentir muito bem.

9. Incentive o parceiro a respeitar o tempo dele com a criança sem você

Parte do problema é que quando seu parceiro começou em uma nova relação, provavelmente parte do tempo que ele passava com os filhos foi redistribuído para ser passado com você. E é difícil os filhos entenderem que você não é uma ameaça quando sua chegada significou, literalmente, menos tempo com uma das pessoas que ele mais ama no mundo. 

Isso não está especialmente no seu poder de resolução, e é uma realidade da vida com a qual os seus enteados vão aprender a lidar, do mesmo jeito que todos nós aprendemos, em momentos e por motivos diversos, a entender que cada uma das pessoas que amamos e com quem nos relacionamos vão dividir o tempo e o amor delas com outras pessoas. 

Contudo, incentivar o parceiro a passar um tempo exclusivo e de qualidade com a prole, reassegurando elas do lugar na vida dele, é algo que você pode fazer, e inegavelmente terá enormes benefícios no convívio familiar. 

10. Respeite o seu processo

Essas dicas focam em possibilidades de atitudes que partem da responsabilização das pessoas adultas pela relação familiar que está se estabelecendo, especialmente do(a) novo(a) parceiro(a) que está entrando numa realidade familiar já existente. Pode ser que se entender nessa relação seja fácil e natural, e aplicar essas dicas seja como um passe de mágica.

Mas também pode ser que seja muito difícil mesmo se entender nesse novo lugar, e você nem ache espaço para tentar fazer muita coisa a respeito dessa relação.

Pode ser que situações com seus enteados façam borbulhar suas questões e inseguranças com o seu relacionamento, e talvez a relação do parceiro com os filhos e/ou com o(a) ex deixe tudo mais desafiador. Talvez você não tenha a menor experiência com crianças, e nem nunca tenha tido vontade de ter – e não é porque você achou que estar com o seu parceiro fazia esse desafio valer a pena que você é obrigado a amar cada momento.

A dica aqui é respeitar o seu processo, e validar os seus sentimentos em relação a isso tudo. Se você achar necessário, converse com o parceiro sobre o que está rolando (se precisar de ajuda, confira aqui nosso artigo sobre como ter uma comunicação mais efetiva). No fim do dia, mesmo que você faça tudo que está ao seu alcance, essa relação não depende só de você.

É importante frisar que cada família é uma família, e o seu nível de envolvimento e responsabilidade pela criação dos seus enteados vai variar muito de acordo com as especificidades das circunstâncias. É impossível abarcar todas as situações, e esse artigo não se propõe a ser uma voz universal, mas uma perspectiva.

A minha esperança com esse artigo é ajudar com que tenham menos madrastas más e padrastos equivocados soltos por aí, e mais gente bem intencionada e bem informada para fazer dessa relação delicada o mais especial que ela pode ser. 

Observação: Eu falo muito de genitores nesse texto, porque a situação mais comum de pais separados de crianças e jovens é de pais biológicos, contudo acredito que essas dicas funcionem exatamente da mesma maneira para casais que tiveram seus filhos por meio de adoção, e depois de separaram e seguiram para se relacionar com novas pessoas.